Será mesmo o glúten o mau da fita? 2


Nos últimos meses tem sido um assunto em voga e milhares de pessoas em todo o mundo têm aderido ferverosamente à dieta sem glúten. Mas será que realmente todas estas pessoas têm sensibilidade ao glúten?

E a exclusão do glúten é benéfica para todos?

Há menos de 2 anos atrás, confesso que nem sabia que o glúten são proteínas presentes nos grãos de diversos cereais (farinhas) e é utilizado como espessante na maioria dos alimentos processados. Aliás, vivia no total desconhecimento da sua existência e do seu efeito nocivo em pessoas celíacas. Não fazia ideia que um doente celíaco pode apresentar graves sintomas de saúde só pela ingestão de quantidades insignificantes de glúten ou alimentos contaminados por este.

pães com gluten-nutrihealthyalex

Hoje pelo contrário, podemos encontrar o rótulo a indicar “sem glúten” em diversos produtos de qualquer supermercado, mesmo até num simples pacote de sumo “natural”.

É indiscutível que a divulgação desta proteína e os seus efeitos prejudiciais, possibilitou um aumento significativo das opções alimentares que antes eram de difícil acesso para os doentes celíacos. E também permitiu dar a conhecer uma dieta sem glúten que veio ajudar na eliminação do peso a mais, mau humor, fadiga, doenças autoimunes, diabetes, problemas dermatológicos e deficiências nutricionais de centenas de pessoas com intolerância imunomediada ao glúten. Ou como muitos dos especialistas prefere chamar de sensibilidade não celíaca ao glúten, visto que nestas pessoas os resultados dos testes à doença celíaca é negativo e normalmente não apresentam inflamação do intestino. Contudo apresentam melhoras significativas destes sintomas aquando a exclusão destas proteínas da sua dieta.

O problema é que estatisticamente apenas uma pequena percentagem mundial é que apresenta esta sensibilidade verdadeiramente. E sem um teste fiável e um acompanhamento exaustivo por um médico especialista, estes sintomas são ambíguos e podem dever-se a outros factores que foram também eliminados aquando a dieta sem glúten como o stress ou outros alimentos que não contêm glúten, como por exemplo, os açúcares e os produtos processados ou geneticamente modificados, que foram também suprimidos porque se optou por uma dieta mais saudável e natural.

É o caso da síndrome do cólon irritável, trata-se de uma perturbação gastrointestinal que origina diversos sintomas digestivos crónicos e recorrentes como a dor abdominal (cólicas), a flatulência (gases), o ventre inchado, a diarreia e obstipação. Ou seja, as pessoas com síndrome de cólon irritável têm o tecido muscular do intestino mais sensível que reage mais intensamente aos estímulos ao qual é sujeito, como a sua alimentação e o stress. Esta disfunção pode debilitar a saúde e a qualidade de vida diária dos doentes, que em diversos casos foi também associado à sensibilidade ao glúten, pois a sua exclusão da alimentação destes pacientes permitiu uma redução clara dos seus sintomas.

sindrome do colon irritavel-nutrihealthyalex

Mas foi em estudos e pesquisas cientificas recentes que a sua ligação veio a comprovar-se pouco relevante, uma vez que foram testados doentes com síndrome do cólon irritável e sensibilidade ao glúten à dieta pobre em FODMAPs (Fermentable Oligo-saccharides Disaccharides Mono-saccharides and Polyols). No final do ensaio, verificaram que apenas 8% dos participantes apresentavam reacções severas ao glúten, sendo que nos restantes estas eram pouco expressivas em comparação com as reações a outros tipos de FODMAPs (1).

Ou seja, para termos a certeza que apresentamos sensibilidade ao glúten nem sempre é fácil o seu diagnóstico correto. E como actualmente ainda não existe um exame 100% fiável e descritivo da possível reacção a qualquer uma das proteínas existentes no glúten ainda é mais complicado comprovar esta possibilidade sem um acompanhamento de um especialista.

Enfim, a nossa barriga inchada e o mau estar que tantas vezes nos incomoda e perturba a nossa qualidade de vida, pode no final de contas, não ser assim tão fácil de associar ao maléfico glúten.

Por isso é que hoje decidi expor estas questões e vou continuar a desenvolvê-las nos próximos artigos, com a esperança que vos ajude também a dissipar outras dúvidas que ainda ficaram por explicar como por exemplo alguns erros que se devem evitar ao seguir a dieta sem glúten e saber afinal o que são os FODMAPs?

Acham interessante? Dêem-me o vosso feedback.

(1)“No effects of gluten in patients with self-reported non-celiac gluten sensitivity after dietary reduction of fermentable, poorly absorbed, short-chain carbohydrates” de Jessica R. Biesiekierski, Simone L. Peters, Evan D. Newnham, Ourania Rosella, Jane G. Muir, Peter R. Gibson, Maio de 2013

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2 thoughts on “Será mesmo o glúten o mau da fita?

  • Raquel

    Olá Alexandra 🙂

    Adorei ver o teu blog! Quanto ao glúten,gostei de ler um artigo finalmente que não é de caça às bruxas. Não obstante os reais problemas com o glúten, e retirando os celíacos da equação, tem sido uma autêntica moda perseguir o glúten sem grande ou nenhuma reflexão. Tenho-me dedicado a fazer pão de fermentação natural e quando me falam do custo das boas farinhas, falo muitas vezes que o custo da nossa saúde está muitas das vezes na matéria prima e não no produto final. Ora se como pão cheio de químicos … parece-me que não há milagres.

    Um beijinho,
    raquel

    • Alex Post author

      Obrigada Raquel!
      Sabes que apoio totalmente a tua dedicação ao pão de fermentação natural. É um dos melhores pães que posso recomendar tanto pela qualidade do seu sabor como para a promoção da nossa saúde. Beijinhos